O fim de Clarice e Raquel
Escreve Nazareth. Não gosto de mártires, não gosto de símbolos de dores. Clarice e Raquel não escrevem mais, e esse blog termina aqui. Ontem João assistiu à sua eutanásia e testemunhou um dos piores trabalhos que cabe a um veterinário. É o dever de fazer o melhor pelos animais que guiou a dra. Claudia nos difíceis procedimentos de eutanasiar. As meninas dormiram com o relaxante muscular e depois vieram as outras fases do processo. Elas nasceram e morreram juntas, sem nunca terem se separado. A eutanásia não é simples como se pode pensar, e assusta imaginar o modo como é feita em Centros de Controles de Zoonoses.
Clarice e Raquel foram, sim, vítimas de muitas coisas: do abandono, porque as pessoas ou não se dão conta da importância da esterilização, ou não se mobilizam o suficiente em relação a seus animais ou, se querem se mobilizar, não encontram apoio dos municípios que deveriam propiciar esterilização de qualidade e a baixo custo. Também são vítimas, por um caminho cheio de curvas, da necessidade inconseqüente de quem valoriza animais de raça.
Se for possível a alguém aprender algo com essas duas cachorrinhas que seja que temos um dever para com os animais. Que eles estão sendo levados a se reproduzir sem garantia de para onde vão os filhotes. Que há uma indústria e um comércio se beneficiando da explosão de animais domésticos.
Clarice e Raquel contraíram uma doença depois de resgatadas. Uma ironia. Consolamo-nos porque é certo que teriam morrido lá na lixeira apresentada no primeiro dia desse blog. Mas não nos conformamos de a termos levado a uma hospedagem. De termos dado importância à queixa de uma vizinha intolerante que não aceitou esperar uns minutos até que dormissem. As pessoas se conformam em passar seu domingo assistindo a uma imbecilizante TV, a um som de Faustão (de fastídio), a foguetes de futebol, de reveillon, carros acelerando e buzinando. Tudo isso pode. Mas o chorinho de duas filhotes mobiliza uma mulher que pega o telefone e exige providências. Ela teme não dormir. E eu hoje torço para que sua consciência também não a deixe mais dormir.
Clarice e Raquel não são símbolos. São apenas vítimas da exploração animal.












