Sunday, August 13, 2006

O fim de Clarice e Raquel

Vivir, con el alma aferrada a un dulce recuerdo, que lloro otra vez. (Le Pera)

Escreve Nazareth. Não gosto de mártires, não gosto de símbolos de dores. Clarice e Raquel não escrevem mais, e esse blog termina aqui. Ontem João assistiu à sua eutanásia e testemunhou um dos piores trabalhos que cabe a um veterinário. É o dever de fazer o melhor pelos animais que guiou a dra. Claudia nos difíceis procedimentos de eutanasiar. As meninas dormiram com o relaxante muscular e depois vieram as outras fases do processo. Elas nasceram e morreram juntas, sem nunca terem se separado. A eutanásia não é simples como se pode pensar, e assusta imaginar o modo como é feita em Centros de Controles de Zoonoses.
Clarice e Raquel foram, sim, vítimas de muitas coisas: do abandono, porque as pessoas ou não se dão conta da importância da esterilização, ou não se mobilizam o suficiente em relação a seus animais ou, se querem se mobilizar, não encontram apoio dos municípios que deveriam propiciar esterilização de qualidade e a baixo custo. Também são vítimas, por um caminho cheio de curvas, da necessidade inconseqüente de quem valoriza animais de raça.
Se for possível a alguém aprender algo com essas duas cachorrinhas que seja que temos um dever para com os animais. Que eles estão sendo levados a se reproduzir sem garantia de para onde vão os filhotes. Que há uma indústria e um comércio se beneficiando da explosão de animais domésticos.
Clarice e Raquel contraíram uma doença depois de resgatadas. Uma ironia. Consolamo-nos porque é certo que teriam morrido lá na lixeira apresentada no primeiro dia desse blog. Mas não nos conformamos de a termos levado a uma hospedagem. De termos dado importância à queixa de uma vizinha intolerante que não aceitou esperar uns minutos até que dormissem. As pessoas se conformam em passar seu domingo assistindo a uma imbecilizante TV, a um som de Faustão (de fastídio), a foguetes de futebol, de reveillon, carros acelerando e buzinando. Tudo isso pode. Mas o chorinho de duas filhotes mobiliza uma mulher que pega o telefone e exige providências. Ela teme não dormir. E eu hoje torço para que sua consciência também não a deixe mais dormir.
Clarice e Raquel não são símbolos. São apenas vítimas da exploração animal.

A vitória do vírus


Escreve Clarice. A cinomose nos venceu. As convulsões não espassaram, a angústia de cada crise fez com que eu chorasse quase sem parar. Pergunto aos padrinhos o que está acontecendo comigo. Onde está a minha alegria, minha vontade de brincar e depois meu sono de renovar alegria? No lugar de ser uma cachorrinha, estou virada num ser que sofre continuamente. Não paro quieta e, quando vem a convulsão, minha cabeça sacode sem parar, uma baba grudenta escorre da boca. Depois preciso correr e choro porque não consigo sair disso. Não tenho controle sobre mim.
Enquanto isso Raquel não sai da apatia e da febre. Quando acorda, morde suas patinhas enferidadas. Não é vida de cachorrinhas. E tudo piora muito se os padrinhos não ficam conosco. Choro enlouquecida se eles saem um minuto que seja. Tenho medo, não quero ficar sozinha.

Uma chance para nós



A doutora Claudia nos achou bem. Hidratadas, com bom peso. Fizemos uma junta de amigos dos animais e então pareceu a todos que deveríamos tentar vencer a cinomose pelo menos lutando mais uma semana. Novo tratamento, novos medicamentos, um diazepan na veia. Gardenal para os trimiliques de Clarice. Uns plus em forma de vitaminas. Voltamos para casa. Temos apetite e gostamos de ouvir a rádio FM cultura que os padrinhos deixam tocando na nossa toca quando não estão conosco.
A tabelinha dos nosso medicamentos é assim

Raquel

11:00
Organo(1 drágea);
Núcleo comp.(1 cápsula);
maxicam (comprimidos) até segunda feira;
zelotril ½ comp.;
glicopan (7 gotas);
colírio
14:00
Permanganato de potássio; Potenay
19:00
Organo(1 drágea);
Melagrião;
Spray patas
23:00
zelotril ½ comp.;
Núcleo comp.(1 cápsula);
glicopan (7 gotas);
colírio;
biocanis
3:00
Organo (1 drágea);


Clarice

11:00
Organo;
Gardenal (6 gotas);
Núcleo comp.(1 cápsula);
glicopan (7 gotas);
14:00
Potenay
19:00
Organo(1 drágea);
23:00
zelotril ½ comp.;
Núcleo comp.(1 cápsula);
glicopan (7 gotas);
Gardenal (6 gotas);
biocanis

3:00
Organo (1 drágea);

Friday, August 11, 2006

O pior dia de Clarice e Raquel

Escreve Raquel. Ontem foi o pior dia de nossas vidas. Eu sinto coisas muito ruins nas minhas patinhas que estão muito feridas. A agonia me faz lambê-las e pioro tudo. Isso das pústulas pelo corpo, mais meus olhinhos e os pulmões fazem parte do quadro da cinomose.
Mas o pior é que a Clarice, que estava bem, hoje amanheceu muito diferente. Ela estava agitada, mas o que mais nos assustou foi que saía espuma de sua boca, ela arregalava os olhos porque não entende o que se passa e parecia que tinha obrigação de correr e se debater. Depois soubemos que é a fase neurológica da doença e que ela tem convulsões.
Nossos padrinhos choraram e entenderam que tanto sofrimento não deveria continuar. Eles pronunciaram uma palavra estranha, eutanásia. E a gente não entendeu bem se isso é bom ou ruim. Como tudo que eles fazem conosco é para o nosso bem, achamos que é bom. E entramos na caixinha para irmos para a dra. Claudia S., que no passado já tratou muito bem de um pessoal daqui.
Apesar do mal estar, fomos confiantes para fazer a eutanásia. Mas o que será eutanásia? Ainda se a gente entendesse grego, poderia deduzir da palavra o seu significado.

Tuesday, August 08, 2006

Como pegamos cinomose ou As coisas simples


Se hoje temos cinomose, isso não devemos à lixeira onde vivíamos. Pegamos a cinomose numa hospedagem para cães. Foi na primeira noite do nosso resgate. Chegando na casa dos padrinhos, choramos ao ficar sozinhas. Era domingo, passava das dez horas da noite. Uma vizinha telefonou reclamando do nosso chorinho. Para não criar confusão com a vizinha, confusão que pudesse se voltar contra nós, é que fomos levadas para a hospedagem. Só que o lugar estava contaminado. E nós, fraquinhas, fomos o prato cheio para os vírus.
Que ironia. Parecemos uma profecia dos deuses gregos traçando nosso destino. Só parecemos. Porque que não acreditamos em destino. Ainda bem que nós, animais, não acreditamos. Só queremos viver as coisas simples.

Adivinhem o que é


  • Capstar
  • Ibatrim Oral
  • Milbemax
  • Revolution
  • Panacur
  • Estibion
  • Dexafenicol
  • Otomax
  • Epiotic
  • Zelotril
  • Benzibel
  • Tobrex
  • Melagrião
  • Vetantist
  • Synulox
  • Neotopic SM
  • Potenay
  • Epitezan
  • Ascaridil
  • Biocanis
  • Permanganato de Potássio
  • Sebocalm Spherulitis
  • Novalgina

Não, não estamos montando uma farmácia. Essa listinha nós bebemos ou passamos ou comemos ou injetamos. Tanta química. Tanto sofrimento. Que futuro nos espera não sabemos. Mas alguém sabe o seu?

As coisas inocentes não são tão inocentes ou Nosso brado contra raças


Escreve Clarice. Hoje recebemos a pior notícia possível. Raquel está com cinomose e sofrendo com três fases da doença, que atingem pele, respiração e dão fotossensibilidade. Sofro por Raquel e meu amor por ela há de a salvar da morte.
Também descobrimos hoje que os vírus, tanto da cinomose quanto da parvovirose, chegaram ao Brasil pela mão dos criadores. Por isso essa idéia de raças não é tão inocente. É por causa dela que sofremos tanto. Deixamos de ser adotadas porque não somos de uma raça, nos discriminam por uma coisa pela qual não somos responsáveis e que em nada nos diminui objetivamente. E os pobres cães de raça são negociados, são mercadoria, são símbolo de consumo. Por conta disso, também sofrem. São seres fracos, sensíveis a doenças, "moldados" por padrões de estética e têm suas vidas destinadas a agradar ao gosto e à vaidade humanos. Esquecem que sofremos e que temos desejos. Não bastasse tudo isso, por conta dessa voracidade, importam-se raças para aumentar o mercado e insuflar as vaidades sem levar em conta o problema dos vírus e tantos outros. Raquel é duplamente vitimizada: o abandono e agora a doença. Raquel não fez nada errado. Mas alguém fez.

Monday, August 07, 2006


Cada vez que os padrinhos fazem os nossos tratamentos, eles ficam com muita raiva de quem nos abandonou. Mas nós não temos raiva de ninguém e abanamos o rabinho para todos os seres humanos. Não sabemos sentir raiva. O máximo que sentimos, às vezes, é medo. E eu, Raquel, ainda sinto muitas dores. O que mais me incomoda agora são as patinhas. Nem posso pisar no chão direito e então estou sempre deitada, esperando as comidinhas e a água. A notícia boa é que não tenho tido febre. Mas o resto...

Wednesday, August 02, 2006

Altos e baixos de Clarice e Raquel


Pois, quando uma de nós fica boa, a outra piora. Nossa farmacinha aí em cima não nos deixa mentir.
Se tivéssemos podido ficar um pouco mais com nossa mãe, se não tivessem nos jogado numa lixeira, se o descompromisso com a vida animal não tivesse em nós sua expressão, bem... não precisaríamos estar passando por momentos tão difíceis.
Não nos tem faltado nada, nem carinho, nem aquecimento, comida ou brinquedos. Precisamos só de um tempinho para sermos as mais saudáveis cachorrinhas, uma vez que as mais lindas e preciosas já somos.

Sunday, July 30, 2006

O sol e nós




Uma revolution na vida de Clarice acabou com a sarna. E foi só na hora, porque começou um tempo gelado nesse Rio Grande do Sul e seria difícil aguentar sem pelo. Como seria se ainda estivéssemos na lixeira? Pensamos nos outros bichos que ainda estão na rua e nos entristecemos. Nós ganhamos até pijaminhas para enfrentar o tal de vento Minuano. Até que ao meio dia uns raítos de sol nos fizeram felizes e, além de nós, ajudaram a todos os que vivem nas ruas. Por que são largadas ninhadas por aí é coisa que nem queremos entender. Como não entendemos uma bomba atingindo uma mulher e seu pequeno filho. Somos muito irracionais para compreender os humanos.
Compreendemos melhor o sol.

Thursday, July 27, 2006

Tristezas de Clarice e Raquel



Muitas coisas nos têm entristecido. Mesmo que os jornais cheguem com certo atraso a esse nosso chão, ficamos sabendo que o Líbano está sendo destruído e muitas crianças estão morrendo. Também ficamos sabendo notícias de vivissecção, que é o horror a que os animais são submetidos "em nome da ciência". Achamos que todas as pessoas deveriam assistir ao vídeo Não Matarás. Não bastasse tudo isso, animais sofrem em circos, em rodeios, em provas de laço, nos testes de cosméticos, sendo caçados para esporte (pôxa, esses caras não poderiam ter como esporte fazer o bem?), para casacos de pele (que mau gosto usar uma pele que não a sua)... vamos terminar a lista em outro dia, basta por hoje.